O silêncio que precede o esporro II

Ainda outro dia falei dessa coisa de querer mudar o mundo, da rebeldia de antes e da rebeldia de agora. Essa rebeldia vazia que vemos hoje. Lugares-comuns de vida moderna urbana são coisas como crianças e adolescentes que vivem em apartamentos, mergulhados entre videogames, computadores e televisões sob a supervisão completamente displicente de babás, empregadas domésticas e/ou avós. Crianças que crescem presas e cujos amigos são do mesmo colégio, quando muito do mesmo prédio, mas dificilmente se conhece a vizinhança além do portão eletrônico.

São relações pessoais bem diferentes das dos adultos, relações motivadas pelo medo e pela preocupação paternal com a violência, com as drogas, com seqüestro e por aí vai. Sabe, tem uma coisa que eu costumo dizer é que a píor coisa que os pais podem fazer é proibir tudo, porque isso causa um nivelamento de valores errôneos. Um exemplo de acordo com a minha teoria: um menino de 12 anos que aprende em casa que não pode jogar futebol na rua de baixo e também não pode pegar uma roupa na loja sem pagar pode entender que tanto faz cometer qualquer um dos dois erros, parece que têm o mesmo valor. Mas não pretendo aqui convencer qualquer um dessa minha teoria, me basta que a admitam como possibilidade. O que considero afetada é a relação valores-violações que cada dia se torna menos definida por pura e simples ausência – ou omissão – de uma figura responsável por incutir esta relação em crianças e adolescentes.

E veja só agora nos cinemas “Quase Dois Irmãos“, um filme que vem bem a calhar neste post. Embora eu ainda não tenha visto o filme, sei do que se trata a história: uma adolescente, filha de um deputado federal, envolve-se com um traficante e sai da casa dos pais para morar com ele. Seu pai então procura um velho amigo de cadeia, quando ele era um preso político tornou-se amigo de um preso comum que atualmente chefia o tráfico em boa parte da cidade do Rio de Janeiro de dentro da cadeia. Ao mesmo tempo, o deputado busca junto ao amigo ajuda para um projeto que quer aprovar na câmara. Ou é mais ou menos isso.

O que interessa aqui é a menina que sai de casa. Assim, novinha, põe meia dúzia de roupas na mochila e sai porta afora, pra viver com um traficante no morro. Ela se encanta pela beleza de uma vida que não conhece a fundo, só vê maravilhas, pelo menos até o momento em que se muda para lá.

Isso é puro deslumbre! Aquela situação de quem nunca fez nada de errado por falta de oportunidade de repente estoura com uma bomba que eu acho que deveria servir para se avaliar os valores do que se deve ensinar a um filho, o que fazer e o que não fazer. Porque não se pode chamar de boa escolha um mundo de perigos, inconstâncias, inseguranças e sem oportunidades. A vida sofrida tem muito de poesia e não é nada perfeita quando vista de perto. Mas parece uma boa escolha quando se vive numa casa onde ninguém permanece, todo mundo briga quando se vê e parece uma verdadeira prisão com vista para o mar. A questão é, como vai ser que vai se educar as próximas gerações para que, se quiserem ser rebeldes, pelo menos saibam escolher bons motivos?

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Eu sou uma ideia abstrata de mim mesma, vivendo para o meu trabalho e insistindo em acreditar que algum dia eu vou conseguir escrever o tanto que penso.

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