Pequena análise da mediocridade

A Rede Globo noticiou aos quatro ventos a liberação do casamento gay na Califórnia, mas em nenhuma passagem jornalística expôs um beijo gay, isso me cheira a homofobia. Porque veja bem, quando não se expõe um beijo gay na novela das oito para não matar minha avó do coração eu até entendo. Mas quando o jornalismo se dá ao trabalho de exibir trocas de aliança, assinatura dos papéis, abraços, mas corta a imagem diante da aproximação do beijo, isso me cheira a preconceito. E até uma questão de estratégia de marketing, já que essa discussão mostra-não-mostra gera um disse-me-disse dos bons, que atraem interesse para a novela, normalmente providencial quando a audiência começa a cair. E as borboletas saltitantes que escrevem novela (pelo menos metade dos autores são gays) ficam em cólicas, sem nunca perder a chance de colocar um personagem gay, nem que seja completamente caricato e ofensivo ao gosto de muitos homossexuais.

Ontem no Jô foram expostos dois beijos gays: Tonico Pereira e Anselmo Vasconcelos no filme República dos Assassinos; Tarcísio Meira e Ney Latorraca em Beijo no Asfalto. O que aliás não tinha a menor conexão com o entrevistado, Wagner Moura. De uma conversa sobre uma cena em que Tonico Pereira aparecia de cueca no palco, simplesmente foram expostos os dois beijos. Na madrugada, quando minha avó já dormia o sono dos justos, beijos ficcionais. Não vou entrar nos méritos se fulano ou beltrano beijoqueiro é gay, porque isso simplesmente não importa.

Eu não preciso ser lésbica para entender que expor um beijo encenado – neste caso, dois beijos – não representa justificativa para não expor um beijo real, pra mim isso dá a entender que dois homens podem se beijar, mas só de mentirinha. Duas mulheres então, nem sonhando. Ou sou só eu que me lembro da novela em que duas adolescentes namoravam, mas a gente só sabia disso porque os jornais contaram, já que na novela pareciam duas amiguinhas? Beijo gay então só pode de faz de conta, de madrugada. De verdade, não pode nem no Bom dia Brasil. Será que por acaso a mídia considera que ser homossexual é ficção?

Sobre

Eu sou uma ideia abstrata de mim mesma, vivendo para o meu trabalho e insistindo em acreditar que algum dia eu vou conseguir escrever o tanto que penso.

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2 Comentários

  • É que o diferente – apesar das gente saber que existe – continua sendo jogado pra baixo do tapete, pq é mais fácil fazer de conta que a vida é igual novela: todo mundo bonito, certinho e previsível, rumando sem questionar rumo a um insosso final feliz.

    Beijo 😉

  • Há muito tempo existem casamentos gays nos Estados Unidos – para vc ter uma idéia a Igreja Presbiteriana do Brasil, é intitulada igreja independente porque rompeu com a norte-americana, quando esta passou a aceitar o homossexualismo como opção de vida, e isto está no mínimo com duas décadas.
    A TV tem o poder de entrar nas casas, mas a gente vê que ela mesma enquanto levanta discussões sérias sobre certos assuntos, em outros momentos promove o inverso. Exemplos: prostituição infantil X erotização infantil; corrupção X negociações (e´bom ler o “ai meus sais”); retidão dos sacerdotes X estereótipos dos religiosos etc

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