Momento Diarinho: A Saga das Lentes de Contato

Prólogo
Sexta-feira à noite, niver de uma amiga, decidi me maquiar. Veja, eu não costumo usar maquiagem, mas amo muito, tenho de tudo e ultimamente ando a fim (tem a ver com um processo de recuperação de auto estima que eu me impus, sobre o qual eu ainda vou escrever). Não ia fazer pacote completo, só um lápis-rimel-batom, procedimento simples. Peguei o lápis, tracei um olho e coloquei os óculos pra ver como ficou. MEUSENHORAMADOQUEDESASTRE, tava longe, torto, enfim, uma merda. Pra consertar eu sairia de casa praticamente a Amy Winehouse, toda trabalhada no olho preto.

Ocasionalmente, eu uso maquiagem, apesar de não enxergar bem. Pra quem não sabe, eu sou hipermétrope (não enxergo de perto, quase 4 graus). A hipermetropia nunca foi problema pra mim, sempre gostei dos óculos que uso desde os 13 anos. Mas naquela sexta-feira, com a vista cansada de um dia inteiro na frente do computador, aos 34 anos, é a Amy ou nada. Acabei tirando tudo e saí pensando que talvez seja o momento de começar a usar lentes de contato.

Já andava pesquisando preços pra trocar meus óculos e as lentes andam custando mais de 400 pila, 800 pila com uma armação legal, preciso trocar a cada 2 anos. A caixa de lentes de contato sai por 160, 6 meses. É bem mais barato, por que não?

Capítulo 1: o teste de lentes
Terça-feira: sai da consulta bem feliz, fui fazer o teste de lentes ali mesmo na clínica. A guria colocou pra mim, sensação mais tensa da vida uma pessoa colocando o dedo no seu olho aberto. Aí ela me mandou passear um pouco, ficar uns 15 minutos pra ver se não incomoda e talz.

Ok, volto e ela me explica o procedimento de tirar e colocar a lente de contato. Tirar foi super tranquilo, levei 2 segundos. Agora colocar aquilo novamente foi um exercício quase desesperador. Cheguei a pedir pra ela colocar novamente pra mim, porque eu queria muito sair dali enxergando bem. Agora lembrando aqui acho até que eu bati o pezinho igual uma criança de 5 anos fazendo manha. Que cena ridícula, meu deus! Ela me respondeu como se eu tivesse mesmo 5 anos e explicou que se eu não conseguisse sozinha não poderia levar as lentes. Respirei fundo, entoei um mantra inteiro e consegui colocar a primeira lente. Aí levei 2 segundos pra colocar a segunda. Uma glória, meus senhores.

Saí de lá muito orgulhosa de mim mesma, enfrentei a horda de panfleteiros das óticas na porta da clínica. Dispensei de maneira muito superior os vendedores respondendo “obrigada, eu uso lentes”. Me senti assim uma espécie de super adulta plenamente funcional.

De noite, aquele ritual: separa os óculos, abre a caixinha, lava bem as mãos e vamos lá, dedo no olho pra tirar essa porra. 2 minutos, tirei do olho esquerdo. Quase meia hora depois, eu definitivamente não sou capaz de tirar a lente do olho direito. Devo ter feito manha igual criança de 5 anos de novo, só que dessa vez era só eu e meu desespero, sozinha em casa.

A guria tinha comentado que em caso de emergência eu podia ir pra clínica pedir pra alguém tirar a maldita lente. Enxergando só de um olho, fui pesquisar o endereço do plantão, me organizei pra sair resolver essa merda à meia noite. Resolvi fazer uma última tentativa e por uma bênção divina consegui tirar. Tempo total gasto com certeza foi mais de uma hora.

Capítulo 2: a semana de adaptação

Dia 2 (quarta-feira)
Meia hora pra colocar as lentes. Fui pro trabalho sentindo aquele caroço enorme no meu olho esquerdo (maior grau), mas aí o dia passou e eu relaxei, esqueci. Reuniões, calls, 12 horas na frente do computador, bem de boa. Tirei as lentes em 20min, um sucesso!

Dia 3 (quinta-feira)
Coloquei rápido, passei o dia com a lente esquerda me incomodando. Tirei em 20 minutos, percebi que coloquei uma das lentes “pelo avesso”.

Dia 4 (sexta)
Coloquei em tempo civilizado (20 min é o que chamo de tempo civilizado). Saí pra trabalhar toda atrapalhada com a lente direita, tirei a bendita de tanto coçar o olho. Entendi que fiz a mesma merda da véspera, tava pelo avesso. Arrumei e sobrevivi.

Dia 5 (sábado)
O plano era sair, ou seja, maquiagem, ou seja, lentes. Meia hora pra colocar a lente esquerda, depois de mais 40min fracassando miseravelmente na tentativa de colocar a outra, desisti da ideia. Tirei a lente esquerda de novo, me maquiei a la Amy Winehouse e saí de óculos.

No domingo eu desisti, fiquei de óculos mesmo. Fui pra São Paulo passar a semana a trabalho, resolvi nem levar as lentes, tava foda, eu não teria esse tempo todo pra perder todo dia.

Capítulo 3: as cenas ridículas

Voltei na semana seguinte disposta a fazer dar certo. Coloquei a lente em 20 minutos, passei um dia normal. De noite não conseguia tirar a lente do olho direito, passava o dedo, tentava de tudo e nada de conseguir pegar a lente. Olho ardendo já. Botei os óculos e percebi que já não tava de lente. Pronto, derrubei essa merda. Procura na pia, na mão, na manga do roupão, no chão do banheiro, em 32 lugares. Achei colada no meu sapato, incrivelmente intacta. Lavei, guardei, botei colírio, segue o baile.

Na semana seguinte tive mais um dia de perder a lente dentro do olho e outro de tentar tirar a lente que não tava mais lá, localizada na torneira depois de uns 40 min.

Começou outubro e eu pensei: mês novo, vida nova, eu vou me adaptar. Eu não posso ser derrotada por um par de lentes gelatinosas. O projeto estava indo bem, eis que chega dia 11. Véspera de feriado, tarde na noite, eu gripada daquele jeito maneiro. Eu tava tirando as lentes e espirrei. Caí de bunda no chão, bati a cabeça no batente da porta e arremessei a lente sabe lá onde. Passei umas 3 horas procurando essa merda. Sério, nunca mais achei, não está dentro do meu apartamento! (e passei uns 10 dias fudida de dor da queda).

Levei uns dias para comprar novos pares de lentes, mais uns dias de vexame, grazadeus todos eles ocorridos sem testemunhas.

Epílogo
Hoje, 3 pares de lentes depois, eu sou um adulto plenamente funcional, coloco e tiro em menos de 5 minutos, sei qual é o lado certo, me maquio com eficiência e até mesmo já ousei dormir de lentes de contato. Já cheguei naquela fase de levar uma vida normal, inclusive com a vista bem menos cansada no fim do dia.

Eu sempre gostei de usar óculos, tem dias que eu fico só com eles (é o que a doutora manda, inclusive), mas hoje chego em casa e não estou com a vista tão cansada quanto com os óculos, posso ler e/ou aproveitar melhor meu tempo à noite e posso comprar óculos de sol que não custam um rim. Isso sim é um momento Mastercard.

obs.: este post seria infinitamente melhor se fosse produzido por Vanessa Negrão.

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Post Author: Lomyne

Eu sou uma ideia abstrata de mim mesma, vivendo para o meu trabalho e insistindo em acreditar que algum dia eu vou conseguir escrever o tanto que penso.

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