Como fazer um feliz dia dos professores

Aproveitando que hoje é dia do professor, quero aqui pedir um exercício. Eu estou caminhando para ser professora. Hoje é minha fonte de renda parcial, o objetivo de vida é pagar todas as contas assim, mas ainda estamos na luta. A ideia que eu vou colocar aqui quem sabe um dia se torne um artigo acadêmico, um projeto de pesquisa. No momento é só uma elucubração não fundamentada, então me acompanha aqui, só pra pensar um pouco.

O maior problema da educação brasileira é que o aluno não quer aprender

Vou dar um exemplo: um jovem tem um sonho, ele quer ser advogado. Veja bem, ele não quer aprender legislação, argumentação, ética e filosofia. Ele quer ser advogado. Aprender não é o objetivo, o objetivo é ser advogado. A faculdade inteira, com todas aquelas disciplinas, trabalhos e avaliações são obstáculos a serem vencidos para ser advogado. Não se dá valor ao aprendizado, se dá valor ao diploma.

Uma cena comum: no fim da aula, professor acabando a explicação, o sinal bate. Um aluno levanta a mão e faz uma pergunta importante para o conteúdo. Você já viu essa cena, seja na quinta série ou na pós-graduação. Faz um exercício de memória aí e me diz o que acontece no ambiente. Você sabe do que eu estou falando. Se você alguma vez já foi esse aluno que fez a pergunta, você sentiu a reação das pessoas. Não foi gostoso, né? Eu posso dizer que já fui odiada por isso algumas vezes. Se você nunca fez a pergunta, mas já ofereceu seus olhares de reprovação, você é parte do problema.

A nossa sociedade constrói o ódio e o desprezo ao aprendizado desde pequenininho. Aforismos simples como “quem não cola não sai da escola” reforçam essa cultura, que se complementa pela exclusão social do bom aluno. Descolado é o cara que mata aula na piscina abandonada, que pula o muro da escola pra comprar vinho. Tirou nota boa? Os colegas prontamente criam rótulos pejorativos: CDF, nerd, puxa-saco. E se receber um elogio da professora então, nossa, pária social pelo menos até o fim daquele ano.

Estamos educando jovens do século XXI com professores do século XX e metodologia do século XIX.

Escutei essa frase aí várias vezes ao longo do curso de Gestão e Docência de Ensino Superior. Eu sei que nosso sistema educacional é obsoleto e distante da realidade, tem um monte de falhas, dificuldades, não é perfeito. Vai demorar pra reformar nosso sistema e do jeito que estão querendo fazer atualmente, é bem provável que dê errado. Mas sinceramente? Não há nada que se possa fazer pelo sistema educacional, seja em termos de infraestrutura, dinheiro ou qualificação que seja efetivamente tão poderoso quanto a vontade do aluno.

Até quando você vai achar que a responsabilidade sobre o seu aprendizado é de outra pessoa?

Não é o professor que dá a nota “vermelha”, é o aprendizado do aluno que não atingiu o mínimo necessário para considerar que ele pode evoluir. Você alcançou menos de 60% do conhecimento que deveria ter absorvido! O objetivo é atingir 100%, é tirar nota 10! Se fizer uma casa pra 10 pessoas com 6 camas, você entende que não tem lugar pra todo mundo? E se convidar 10 pessoas pra jantar e fizer comida pra 6? Falta, né? Então como diabos você pode achar plausível reclamar quando faz MENOS que estes 60%? Aprovar só com 60% já é um absurdo! Nota não é recompensa, é resultado. E o seu resultado inferior a 60% deveria ser algo de que se envergonhar. Ain, Lomyne, mas eu tive um professor que me perseguia, por isso eu reprovei. Ele te perseguiu o suficiente para tirar mais que 40% da sua nota? Não mete essa! Um professor não consegue tirar tanto assim só com implicância e detalhes. Se você tivesse se dedicado pra tirar 10, não tiraria menos que 6, exceto em caso de dificuldades de aprendizado realmente sérias e muito raras. Se este for o seu caso, desculpe.

Para muitas crianças, a escola é uma coisa que os pais obrigam. Para muitos adultos, a faculdade é um obstáculo a ser vencido para exercer uma profissão e a pós-graduação apenas um meio de conseguir uma promoção no trabalho. E assim temos uma sociedade repleta de pessoas que acham que educação acadêmica é algo que alguém tem que te dar. Ou pior, a ideia de que nota é algo que o professor te fornece em troca do seu imenso esforço de ir às aulas e fazer as avaliações com a mensalidade paga.

Não é só isso, não. Ou você acha que pra receber o salário é só ir pro escritório, se passar o dia inteiro no Facebook e no WhatsApp tá de boa? Não, né. Da mesma forma, para conquistar a pessoa que você tá a fim, você faz de tudo. Mas na hora de aprender, se senta lá todo rei/rainha da Pérsia esperando que ganhe a nota, ganhe o diploma. Isso não se ganha, se merece. Aproveita e prova pra todo mundo que você é um real defensor da meritocracia, vá lá, estude, aprenda e mereça. Ou aprenda a admitir que não merece, só quer, como uma criança fazendo escândalo no mercado porque quer um Kinder Ovo. Existem mães que compram o Kinder Ovo depois do escândalo, assim como existem faculdades que demitem professores exigentes por reclamação dos alunos. Existem mães ruins, existem instituições de ensino ruins. Eu prefiro uma mãe que não cede a escândalos, assim como instituições com professores exigentes. Por um motivo bem simples: são estes que te darão uma verdadeira educação.

Eduque seus filhos, eduque a si mesmo. Assim vocês fazem todos os dias dos professores mais felizes. Muito melhor que uma frase da boca pra fora, uma vez por ano.

Àqueles que foram meus professores e leram este post, eu peço desculpas pelas vezes em que eu mesma falhei com este discurso que faço agora. Especialmente ao Adílson Cabral, que certa feita me pegou matando aula e jogando sueca. Eu mereci aquele puxão de orelha. E a todos os professores que são responsáveis pelo que penso hoje, meu mais sincero agradecimento. Eu lhes devo boa parte de quem eu sou. Obrigada mesmo.

Sobre

Eu sou uma ideia abstrata de mim mesma, vivendo para o meu trabalho e insistindo em acreditar que algum dia eu vou conseguir escrever o tanto que penso.

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