Roger Waters: eis por que me tornei blogueira

Disclaimer: se este post te ofender, muito provavelmente você é um alienado social. Se ser chamado de alienado social te ofende, acho que você deveria repensar seus valores para ver porque a carapuça serviu. Mas você também pode seguir livre com sua alienação social cantando lá lá lá. A democracia é uma beleza, mas tem certos custos.

Rio de Janeiro, início de 2002. As aulas da faculdade tinham começado e os amigos em polvorosa comentavam a proximidade do show do Roger Waters. Não vou aqui pagar de roqueira que manja dos paranauês, eu sabia que ele era do Pink Floyd e cabou-se. Já era motivo de sobra pra ir. Eu nunca fui grupie de ninguém, eu prezo um milhão de vezes mais música brasileira, eu não me interesso muito pela vida dos artistas. Gosto da arte, não da pessoa. Deve ser por isso que não gosto de BBB. Enfim, desvirtuei. Queimei todos os meus tostões, combinei com os amigos um ousado plano logístico e fui no show do Roger Waters.

O MELHOR SHOW DA MINHA VIDA. Não eram só as músicas ao vivo, Roger Waters faz um verdadeiro espetáculo. Eu saí de lá com a certeza de que eu precisava compartilhar como eu me sentia, eu precisava escrever e contar pra todo mundo em detalhes. Foi por isso que criei um blog. Só não coloco o link aqui porque alguns meses de arquivos foram perdidos numa migração há uns anos.

O momento mais inesquecível daquela noite ocorreu ao som de Mother, diante da questão Mother should I trust the government?, quando a Praça da Apoteose lotada explodia em um imenso NOOOOOOOOO, consistente, simples, simultâneo.

Isso ocorreu em março de 2002, nosso presidente era Fernando Henrique Cardoso e a campanha política estava muito longe. Quem estava lá sabia a dimensão política que permeia a obra da banda, os contextos e não tinha dúvidas que não se deve confiar no governo, independente de qual seja. Eu não consigo colocar em palavras como eu me senti aquela noite, o que posso dizer é que chorei litros, foi o melhor show da minha vida mesmo. Hell, yeah, sou blogueira por causa daquele show.

Corta para 2018. Na manhã de 10 de outubro, sites de notícias e redes sociais em polvorosa, pois temos Roger Waters de novo no Brasil e por uma razão que eu simplesmente não consigo entender, a dimensão política do show surpreendeu. Como? O que diabos as pessoas achavam que significa Another Brick on the Wall? Sabe, lá em 2002 eu não conhecia o contexto da banda, mas eu sabia me virar em inglês. Quando era adolescente, de dicionário na mão, tirando dúvida com a professora, eu traduzia as músicas que gostava pra decidir se eu gostava de verdade ou não. Manja entender o significado? Então, muita gente não manja.

Se você não sabe o que aconteceu, resumo rápido: Roger Waters se posicionou contra o neofascismo no mundo e incluiu o Brasil na lista com posicionamento contra o Bolsonaro. Além disso, gloriosamente meteu no telão, justamente em Mother, justamente no verso Mother should I trust the government?, a imensa hashtag #ELENÃO. E vendo no Youtube eu fui às lágrimas de novo, pois Mother ❤. Assiste comigo aqui, pode até chorar junto.

Fontes duvidosas anunciavam ontem que Roger Waters encerrou o show se desculpando que não entende exatamente o que acontece no Brasil. Nossa, Lomyne, você acha essa fonte duvidosa? Sim, eu acho. Primeiro porque ela está no R7, caso você seja um total alienado, esse portal é dos mesmos donos do canal de tv onde Bolsonaro deu uma entrevista enorme justamente no mesmo dia em que não pôde comparecer ao debate da Globo por motivos de saúde. Não gralha não, colega, grow up (especialmente pra você que não entende o inglês das músicas do Pink Floyd, esta é uma expressão que significa “cresça”, no sentido de ser adulto, que em inglês é literalmente grownup).

Mas se você insiste em se abraçar na alienação de quem nunca entendeu Pink Floyd nem Roger Waters e quer bater o pé que ele se arrependeu, sinto muito por você. Porque não tem só um show no Brasil. No dia seguinte, 10 de outubro, o segundo show em São Paulo teve alterações exatamente das questões sobre o Bolsonaro. Na lista de neofascistas, uma faixa vermelha: PONTO DE VISTA POLÍTICO CENSURADO. E passamos de #ELENÃO para um maravilhoso, escandaloso NEM FODENDO ao som de Mother, should I trust the government.

Você pode votar no Bolsonaro. Eu considero que os eleitores dele são alienados sociais – coisa que infelizmente não é crime. Você pode gostar de Pink Floyd, Roger Waters e votar no Bolsonaro. Isso é hipocrisia, mas hipocrisia infelizmente também não é crime. O que não faz sentido é ficar ofendido com o Roger Waters colocar no telão essa imensa hipocrisia bem sublinhada. Como eu disse no começo, essa constatação pode te ofender. Claro, porque é mais fácil você criticar a mim e ao Roger Waters do que admitir que você é hipócrita. A opção de ignorar isso tudo e sair cantando lá lá lá ainda é seu direito. Pagarei sempre o custo da democracia em que acredito, enquanto isso for democracia.

Por 2002, por este blog, por 2018, obrigada Roger Waters. Se seu show não custasse um rim, eu iria de novo.

obs.: não falei nada de votar no PT, não falei nada do Haddad, não declarei meu voto aqui, segura a vontade de agredir nessa linha. Presta atenção antes de comentar, fofolete.

Créditos e referências: imagens do Twitter, notícias aqui, aqui e aqui.

Sobre

Eu sou uma ideia abstrata de mim mesma, vivendo para o meu trabalho e insistindo em acreditar que algum dia eu vou conseguir escrever o tanto que penso.

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