Um ano de Tinder e os homens que não compreendo

Hoje eu já não entro no Tinder por motivos de total indisponibilidade emocional, mas como comecei 2017 pela milésima vez prometendo a mim mesma que vou escrever mais no blog resolvi desengavetar os 14 posts inacabados que tenho (sim, eu contei) e postar. Decidi começar por esse por motivos de: estava praticamente pronto e deve ser por esses dias que faz um ano que instalei.

O Tinder surgiu enquanto eu estava em um relacionamento, então mesmo sem nunca ter entrado eu já tinha uma opinião semi-formada. Costumo dizer que o Tinder é um açougue: você entra lá pra escolher o melhor pedaço de carne. Não dá pra esperar outra coisa de um aplicativo baseado em uma seleção de 6 fotos e algumas poucas linhas de descrição. É tipo uma balada: você dá uma olhada em tudo que tem e se achar alguém interessante você vai (tentar) conversar. Praticamente nunca sai alguma coisa que preste, a menos que você esteja bem bêbado – igual balada.

Janeiro do ano passado, já tinha me separado há alguns meses e precisava conhecer gente nova em algum lugar. Tenho uma forte preferência por fazer isso sem ouvir música ruim e sem pagar entrada, então Tinder. Configurei faixa etária entre 30 e 40 anos e vambora, ver o que rola.

Depois de 10 minutos:
Puta aplicativo bosta, meio tongo o sistema, perfil criado, range definido.

Depois de meia hora:
Olha só, que nível interessante. Só gente fina, elegante, sincera, altas imagens de viagens. Todo mundo tão viajado e eu nem tenho passaporte…

Depois de algumas horas:
Todo mundo coordenador, CFO, CTO, pica das galáxias. Eu cá com meus botões tinha achado que seria boçal da minha parte escrever que sou coordenadora, depois fui lá e editei.

Depois de um dia:
Ok, eu preciso estabelecer critérios de desclassificação automática, porque olha, da análise preliminar que fica no talvez, 99% não sobrevive à visualização completa do perfil. E assim surgiu a lista de coisas inadmissíveis (ou a primeira versão dela):

Foto de perfil: abdômen.
Qualquer sinal com a mão (metal, vidaloka, paz e amor, foda-se).
Todas as fotos sem camisa.
Todas as fotos com óculos escuros.
Erros de português no texto do perfil.
Foto do carro/moto (sem pessoa, só “patrimônio”).
Pelo menos uma foto exclusivamente de algo relacionado ao time de futebol.
Incapacidade de entender o funcionamento dos campos “instituição de ensino” e “profissão”.
Fotos com bebidas em copos de plástico (sempre faz combo com a foto sem camisa, repara).

Depois de duas semanas:
Nossa, posso escrever um tratado sobre estes aplicativos. Mentira, não posso, porque eu tenho algumas sugestões, mas o que mais me ocorre é um amontoado de perguntas, dúvidas sérias sobre como funciona a cabeça das pessoas… Um ano depois, muitas coisas me intrigam e eu gostaria de perguntar ao usuário médio do Tinder:

1. Por que colocar várias vezes a mesma foto?
2. Qual é o lance com a mão?
3. Só uma foto, do abdômen. Isso funciona?
4. Foto de casal, é proposta de combo? Funciona?
5. Nenhuma foto, sério? Você é casado, né?
6. Todas as fotos de boné: sério colega, quantos anos você tem?
7. Todas fotos de óculos escuros: qual o problema com seus olhos?
8. Nadinha de texto? Você é analfabeto funcional?
9. Número do Whatsapp no perfil: sério que você realmente dá papo pra todo mundo? Duvido, mas ok.
10. “Sou diferente de todos os caras que você conheceu” – sério, você tem certeza que é a última bolacha do pacote e vai chegar numa guria escrotizando tudo que ela já viveu? Ou você já tá avisando que é um bosta?
11. “Só procurando amizades”. No Tinder? Ah, vá!

Uma amiga minha costuma dizer que eu sou o maior sucesso que ela conhece no Tinder, mas eu tenho uma lista de causos desastrosos que merece ser contada com mais amor. Pretendo escrever um outro post com uma série deles, mas um já foi postado, clique aqui pra rir da tragédia alheia.

p.s.: a lista de critérios automáticos de eliminação é bem maior, mas o restante são coisas que eu não vejo nada de errado alguém curtir, só quero pra minha vida, por exemplo um praticante de stand up paddle ou alguém que tire foto na academia.

6 Dicas para ser um adulto melhor

Em 2015 eu ganhei cabelos brancos, o que me habilita a dar conselhos, dicas, enfim, cagar regra a respeito da vida dos outros. Diante disso, segue uma listinha de coisas que eu acredito que podem fazer de você um adulto melhor. Não só em 2016. Pra vida, mesmo.

1. Preserve sua vida nas redes sociais

Em momentos muito felizes ou nos mais podres, é natural rolar aquele impulso de contar tudo pra todo mundo e lá vai todo mundo pro Facebook juntar like e comentário. É legal, mas na maioria das vezes a gente não coloca as pessoas em grupos pra definir quem pode ver o quê e todo tipo de pessoa tem acesso a todos os aspectos da sua vida.

Não tô aqui querendo falar mal de ninguém, mas pessoas tem diferentes referenciais e não somos todos espíritos evoluídos pra nunca levantar um sentimento errado, tipo inveja, raiva. E aí vem a parte que ninguém gosta de admitir: nem todo mundo que tá nas suas redes sociais te ama. Na boa? Aquela colega de escola com quem você não fala desde a oitava série não te ama. Aquele cara que sua prima namorou há cinco anos não te ama. O vizinho da casa de praia da sua bisavó talvez te ame, mas aí já é um papo meio estranho.

Por isso, se o seu plano/projeto ainda está em desenvolvimento, guarde pra você e evite que aleatórios depositem sobre você suas invejas e frustrações. Se o dia tá foda e você precisa de ajuda, fale com alguém diretamente. Amizade não é bingo pra ver quem acerta. Se a vida tá maravilhosa, relaxa e aproveita.

2. Esvazie o armário

Se tem uma verdade nessa vida é que a gente se quebra de vez em quando. Dá raiva, ódio, desejo de vingança, mágoa, enfim, um monte de sentimento merda, mas eu não conheço uma pessoa realmente feliz que guarde esse tipo de coisa dentro de si.

Algumas pessoas próximas a mim são vingativas, já passaram horas tentando me explicar as estranhas elucubrações que fazem pra pagar na mesma moeda. Eu não consigo entender como pode ser que duas pessoas feridas seja melhor do que uma. Também não compreendo como agir de maneira tão desprezível quanto o outro pode ser um bom resultado.

Você não segue adiante nessa vida se fica guardando essas coisas dentro de você. Não tem nada pior do que começar um relacionamento e encontrar um monte de esqueletos nos armários. Esvazie tudo. Sério. Faça terapia, tenha aquela conversa difícil ou apenas aprenda a perdoar. A vida é bem melhor assim.

obs.: amiguinho, você não é o Batman pra ter galeria de inimigo(a). Aprenda a filosofia da Mulher Maravilha: lide com seus problemas de uma vez e segue adiante.

3. Reveja seus conceitos

Se você não repensou a maior parte dos seus conceitos nos últimos 10 anos, então você provavelmente tem sérios problemas de maturidade. Ser adulto é sobre um monte de coisas e como bem diz uma frase na parede da agência onde eu trabalho, já não sou mais tão jovem pra ter tantas certezas.

Quando eu tinha 16 anos, tive um rolo com um cara muito legal. Poderia ter sido um relacionamento sensacional, não fosse o fato de que eu fui uma idiota, porque afinal com 16 anos as coisas que eu achava importantes pra se ter um relacionamento eram ideias aprendidas de outros. Depois de adulta, com conceitos revistos, deu pra notar o tamanho da mancada.

Não tô nem perto de ser perfeita, devem haver inúmeras provas do quanto eu já tive ideias medíocres e errôneas nos 13 anos de histórico desse blog. Repensar algumas destas coisas me doeu, me encheu de vergonha, mas porra como foi importante. Eu já fui uma pessoa muito pior. Eu ainda pretendo ser uma pessoa melhor.

4. Liberte-se do ativismo digital

Calma, não tem nada errado em compartilhar online ideias e coisas que você realmente acredita (exceto aquelas que estão previstas na nossa legislação, porque na internet de hoje é preciso dizer o óbvio). Agora me diz: quando foi a última vez que você debateu com sua mãe sobre gays em novelas?

De que adianta viver falando na internet sobre igualdade de direitos para todos, se você deixa passar a piadinha machista que seus amigos contam? Ou mesmo leva na boa quando o tio fala que alguma coisa é “servicinho de preto”? Compre a briga. Corrija, converse, explique qual o problema. Nem sempre vai dar certo, tente de novo. Tem dias que você vai perder a batalha, tem dias que vai conseguir algum progresso. Tente todas as vezes.

No Natal, um dos meus irmãos reclamava que a esposa dele, extremamente branca, foi chamada de bicho da goiaba no Rio de Janeiro e que isso é racismo também. Expliquei que o peso não é o mesmo, que a coisa não é do mesmo tamanho. Ele entendeu. Uma batalha vencida.

No dia seguinte, família conversando no sofá sobre as imagens do Stenio Garcia pelado. Aquele discurso padrão de “mas porque tirar foto pelado, porque guardar?” Levei meia hora explicando que não interessa porque caralhos fotografaram ou filmaram, que não compartilhar é uma questão de ética. Não funcionou. Uma batalha perdida. Tentaremos novamente em breve.

Isso é muito importante, sabe? Na maior parte das vezes, compartilhamos coisas na internet que só chegam em pessoas que concordam com a gente. No almoço de domingo, com os colegas de trabalho, com amigos, com família lidamos com pessoas diferentes e lá sim, dá pra criar um mundo melhor.

5. Pare de julgar as pessoas

Não é porque a pessoa é gorda, ou gay, ou negra que ela é incompetente. Não é porque o cara tem tatuagens por tudo quanto é lugar que ele trabalha na Chilli Beans. E se for, não tem nada de errado em trabalhar na Chilli Beans. Não tem nada de errado com a pessoa de vestido florido no show de rock (provavelmente essa sou eu). Não tem nada de errado com as roupas de ninguém, com o cabelo cor de rosa.

Pense um pouco nas pessoas que não gostam de coisas que você gosta. Uma pessoa não é melhor ou pior do que outra porque gosta de funk, ou porque curte umas roupas estranhas, nem mesmo porque gosta de Senhor dos Anéis. E definitivamente não é porque você entende de música ‘boa’ que precisa menosprezar quem gosta de Legião Urbana.

É um exercício muito difícil, não é toda hora que a gente consegue olhar pra roupa de alguém e não ter nenhum pensamento maldoso. Mas tenta. Tenta que a vida pode ser bem melhor pra todo mundo.

6. Adicione uma regra

Sério, bota aí uma coisa que te tornou um adulto melhor. E feliz 2016.